quinta-feira, 24 de abril de 2008

Aquilo Que Não Se Vê


a cidade me é curiosa.

com seus prédios imponentes. carros levando solidões por seus caminhos. congestionamento de solidões. as outras todas nas calçadas: muitas caminhando apressadas; outras à espera de um ônibus; à espera de uma carona. à espera de alguém que a tire dessa coisa de estar só.

bancas de jornais e revistas com letras dissolvidas em pedaços ilegíveis de papel. sons indecifráveis a qualquer Édipo. e todos os sons imagens palavras ilegíveis para e a mim.

um odor carbônico me seca as narinas. lixos no chão que não me atraem. voa indigente e rasteiro pelo vento que o empurra aqui e lá. e um lixo, que entre os voadores, se mantém intacto.

intacto e invisível. tão indigente quanto o outro. sujo. preto, úmido. fétido. com pelos sobre sua superfície visível. escondido de toda a paisagem urbana por trapos encardidos. o kitsch do lixo urbano.

salvo o cheiro, ninguém o nota. e quando o nota, não se sabe a origem do odor pútrido. ninguém o vê, salvo quando se nota um entulho à frente e com a etiqueta de um lord das ruas se desvia sem questionar o que.

e o que é?

note você mesmo. tal lixo se encontra em qualquer esquina. em qualquer praça. morto de frio em qualquer madrugada. algo com corpo e talvez um pouco de alma. algo como eu. algo como você. algo como um humano.

não fosse ele estar escondido nos trapos do anonimato e na arrogância de nossa indiferença.

e quem se importa em salvar um corpo semi-almático, nós que sequer alma temos? preciso me salvar: minha salvação não depende do outro. muito menos d'um corpo-outro fétido, encoberto em trapos.

um outro que ignoro, porque se olho mais que um átimo de segundo ele vira meu espelho. e aprendi que o homem não vem dos macacos. papai me disse mamãe me disse e o papa também!

passo (até com certo constrangimento) ao lado desse corpo (vivo ou morto, não me importa) como se não pertencesse a meu mundo. um mundo que inventei.

um mundo o qual posso ignorar o espelho que revela minha miséria.

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