sexta-feira, 22 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
Canto de Orfeu
isso de te guardar em mim tem
nome impronunciável, inaudito
– iminência de nuncas.
não tem nome – retorno, partida
(É estancado no corpo, o que fica)
esse isso impregnado dentro,
essa outra carne,
esse viço
se crescendo ausente
: é nome que não se pronuncia
pernas bêbadas que te seguem
seu corpo longe par-
....................................tido na garganta
“Visione del silenzio
Angolo vuoto”
desejo.
todos os rostos seus. e não: distante sê-lo
tua presença ausente
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Onde o silêncio
onde no peito
raízes líquidas a fazem árvore lacrimae
chora o corpo pedindo sede a cada
músculo
areias
ancestrais escorrendo a garganta dentro
nos seios, a gravidade invertida retorce
amores convexos onde tudo quer rasgar sóis
arco-íris obscuros cantam em sua boca
cantilena espectral,
onde o silêncio é braço soberano
onde o silêncio é dor que se cala
onde o silêncio
domingo, 25 de julho de 2010
domingo, 6 de setembro de 2009
1201
12 de janeiro de qualquer ano e dia: igual. há anos esse calendário estancado na parede, esburacando a duração. ele tem a cor da parede (e que cor?), e não sei um e outro. às vezes, daqui do sofá, o vejo como uma mancha sutil no tempo. eu e o sofá somos sutilezas espaciais. não somos um e outro. somos apenas. e se houvesse quem passasse nesse cômodo, veria apenas "heras arrancadas", e se for possível ver. e se visse, não sei o que veria; minha retina não cheira mais a cor da matéria, não toca mais no coração do tempo. desde o dia que começou a existir uma data: 12 de janeiro; a mancha na parede.
ainda hoje, o sofá em meu colo, abraçando-me no dele - amálgamas simbióticos. a parede nos des-limita; tira-nos o contorno, desfazendo existências.
12 de janeiro nasceu no centro de um verão. como naquele ano. como hoje. como sempre. o verão me repetindo os gestos ao longo da eternidade - prenúncio de morte? (ou a.)
"Quando eu nasci um anjo torto,
desses que vive na sombra
disse:"
repetirás gestos exatos e sem possibilidade de nascença. adentrarás o mundo em comunhão plena, sendo sempre esse mesmo gesto, esse mesmo morto.
12 de janeiro.
foi num dia como esse. num tempo em que ainda haviam janelas que beijavam outras janelas e uma rua cortando os lábios. foi numa época em que, ainda aqui, habitavam contornos. o corpo era exato. o espaço cumpria sua exatidão. e foi na exata incidência do sol queimando o centro da rua que passava um verso inexato, que me tirou o centro.
desfalecida na sarjeta, uma gata dava cria. cada gatinho reivindicava sua porção da mama. os gatos foram devorados pela grande-mãe após o grito primal da primeira mamada.
12 de janeiro me abre o chão: onde em mim habita a morte? onde em mim reina a devoração? o sol queimando o centro da rua revelava o brilho da vida rubra que acabava de extinguir. a janela se fechava.
o quarto onde agora silencio aquele grito primal, é aonde tento espalhar-me em paredes pálidas-perfeitas que não revela rosto. um felino não-nascido se debatendo entre móveis e vazios.
a parede revela-me uma única pedra imutável, pendurada pesada ao calendário: 12 de janeiro.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Mesa
(a minha, esta)
ainda não posta
ela me esconde
um copo
um prato
: uma fome
(do tamanho de minha saudade)
ela posta
aos poucos me revela
o silêncio das manhãs
(disse-me que o silêncio é a mais sincera das respostas)
às vezes esqueço
outro
copo prato (você)
hesito
um (novamente : eu)
a mesa
(da última vez você disse que precisava ir –
partir)
lições de ausência
: ir exige tempo e, acima de tudo, delicadeza.
você se foi
paciente e delicada
a mesa posta
(agora minha)
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Natureza Morta
mesmo as crianças, apesar dos direitos, têm suas obrigações. e com o animal não seria diferente. impossibilitado pela sua natureza sem jeito, tentava executar as ordens que lhe eram dadas com a alegria dos que saltam do precipício e na queda lembra-se de que precisava de uma corda para se proteger. sem a corda que o salvaria, tudo o que fazia era amor inocente de quem brinca.
impacientes, deram-lhe a sacrifício, ele que já havia o feito, amando sem saber o quê.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Correspondência
e falo menos de vozes: escrevo. o papel é minha voz que chega ao teu ouvido. o que te chega é branco. e o que te dou é minha residência. meu segredo.
respondemos-nos juntos as palavras que não são ditas e somente o som no abraço: coração com coração.
aprendi a levitar.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
o outro sou
talvez estivesse falando de uma coisa única - e agora estou - mas sei que há sutilezas que fazem dos átomos matérias únicas: falo de indivíduos.
o que vêem em mim é sempre mais do que sou, mas nada além do que mostro. e todos mentem. o que de fato vejo? infinitésimas paredes brancas me foram dadas para que minha imaginação fizesse orgia. invento em cada ser um universo particular. que é meu universo. e cada outro ser vê em outro ser universos particulares que também são seu universo. e a soma desses universos é o que se chama Deus - que evoco o léxico por falta de nome e inclusão.
as paredes brancas me são agora desenhos infantis que pinto e as sinto com êxtase de criação. e quando desejo alcançar o que não sou são desenhos infantis que pergunto cadê. a resposta não vem e o que se tem é uma vernissage no limbo.
as cores me sufocam e sou um deslumbrado. alegria me consome vida. alegria de criação é um orgasmo. quase-morte. em meu deslumbramento me perco na cromatografia de universos em bricolage.
evoco Deus e Ele não vem. evoco qualquer força acima de meu corpo mas ela não vem. espero (nunca virá). um branco me assalta a vista como um relâmpago. e penso ser o tal que espero e que mais tarde saberei que nunca virá. agarro-me a essa alvura para que eu tenha motivo para respirar. e na verdade, sei que isto não é motivo. minto uma vida que não tive - e não terei.
emaranho-me em universos que não são meus e os possuo e são minhas invenções e não é nada além que o universo que sempre inventei. sou pulcinella, doutore, arlequim. a ocasião faz a máscara. me perdi em mim mesmo.
o raio branco me salva de algo que não saberei nunca. o Deus que inventei é o que me salva do oco policromático.
talvez após a minha morte, a minha metamorfose final seja a soma de todos os universos que vi(vi), que criei.
e a soma de todas as minhas cores inventadas é o mais puro branco de mim.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
terça-feira, 22 de julho de 2008
Desejo
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
domingo, 20 de julho de 2008
Amor
era uma vez não sei o quê.
um homem, um animal, em ser , um ente.
:um assassino.
e também eu.
ele carregava diversas mortes, como se a própria a tivesse encarnado.
(ele não me disse palavra, mas conheço esse olhar por ancestralidade)
nessa vez - foi única,fulminante, fulgás - era como se Deus se inclinasse para tocar o humano e assim formarem o infinito - nossos olhos se espelharam.
e estavam fechados - amor de cego.
o silêncio de um mergulho - amor de surdo-mudo.
o que falavam-se eram corpos.
o olhar assassínio me era um tiro na nuca, eu de frente. um tiro nele.
espalharam-se todas as nossas crianças, mulheres, amores, flores - mortos. corpos de vísceras.
uma mão me espreme o estômago: a dele; seu estômago quer fugir tudo dentro. mas, o assassino.
era uma vez - num átimo de eternidade
: eu
(sim)
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Elefante Vermelho
uma palavra me invade o tímpano e percute e faz eco na memória: morreu.
(meu Deus, quem a essa hora do dia, podia me por em lugar tão obscuro, de onde eu ocupava exatamente o extremo oposto?)
sigo. não: vou com minhas pernas, que caminham incertas, rumo a não sei onde. meu corpo sofre os espasmos da não concordâcia entre as lateralidades. eu não sei pra onde ir.
minha visão é assaltada pelo cruzamento. pelo que havia nele. vejo: um carrinho majestoso ocupando solitário todo o cruzamento. cacto do deserto. o vejo imponente como um prédio que me interpela. como um prédio que me faz girassol.
ele estava ali, solitário, verde folhas sobre rodas. vazio. silencioso.
não era mudez. a palavra gritava em minha cabeça, tirava minha paz. morreu. morreu.
chego à esquina do cruzamento. cabeças antecedem corpos, olhando na direção oposta à minha, n'outro extremo. a minha é atraída. uma multidão que se anulava em sua cor ocre. destacada apenas por um elefante vermelho, luminoso. ele era barulhento, o elefante. magnético. todos eram atraídos por seu imã. eram seus súditos.
mesmo outros veículos de passagem diminuiam um pouco a velocidade para poder se curvar diante o grande elefante. deviam-lhe referências. meu olhar era fuga e queda. perplexo. pedra viva.
num átimo, a palavra cedeu espaço a outro pensamento: no meio da multidão há um anônimo. a ele se deve a visita do grande elefante. a ele se deve o espetáculo.
foi afastado de seu companheiro que o espera - paciente - no cruzamento. espera como todos os dias acontecem. espera seu alimento. espera ser preenchido, carregado. desbravador.
desbravadores os dois. o companheiro demora mais que o normal. não sabe que ele não voltará nunca mais. que será levado pelo grande elefante vermelho. e ele, paciente, carregado por mãos insensíveis, desconhecidas. que não sabe nada dele. que não o alimentarão.
um paciente, o que ele é. um paciente e um anônimo. que não voltarão a se encontrar. nunca mais.
ele morreu.
(padeço)
terça-feira, 8 de julho de 2008
Ode Descontínua e Remota Para Flauta e Oboé
I
É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.
(Hilda Hilst, IN Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Corpo
um glóbulo cilíndrico percorria o corpo dentro. movia a ponta dos dedos que precedia o toque. percorria o olho antes que este pudesse mundo. percorria cada osso carne nervo veia néfrons: sinapses de êxtase.
uma alegria rompante arrebata cada mímimo de célula. cada célula podia, enfim, dizer: eu.
movimentos frenéticos: a música acelerava, as palavras tomavam o corpo e dele faziam movimento. tomavam dentro e movia fora. dolores: uma insuportável dor de parto tomava o corpo. (explosão) - (arrebatamento): profanos.
garganta seca; respiração arfante; articulações frágeis. e uma difícil alegria.
insuportável.
o corpo diminuía. queria tomá-lo a alegria, ela querendo se fazer corpo. e estava prestes a arrebentá-lo. estava prestes ao rebento, o corpo. uma estrela de mil pontas.
leveza de calvino: o corpo padece. vida.
a garganta não se sabe seca. a fadiga está aquém do corpo. movimento puro. pluma flutuando no infinito.
estado nascente: um corpo amanhece.
uma alegria. difícil.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Por Não Estar (-me) distraído
por estar distraído ando e acho. o que acho me marca. marco. acordo e olho o local da marca. vazio. acabou a epifania.
não estou distraído.
olho o que já não vejo. vejo o que invento. e invento meu fracasso. meu fracasso vira fantasia. e essa, realidade. ilusão. essa que eu criei. por não estar distraído.
desenho no ar uma letra e um . : seu nome. a letra é sua identidade; o . , o que re-significo. memórias inventadas.
o .
: céu e inferno que me dá. que te invento. que te faço.
tornou-se letra e . ; não fiquei imune: novo batismo. nova nascença.
tornei-me letra e . .
tenho um nome só para ti. um nome que é meu e seu. um nome seu que é seu e meu. nos identificamos num universo que habita . . o . é nosso segredo.
invenção é perfeita. quase me invade eros. tanatos me espreita . alegria de criação. quase-morte.
quase: (seguro um touro pelos cornos. a tensão entre nós, é minha razão. às vezes o touro me treme: quase sou-te.)
esqueço. logo me distraio
: você