segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Alberto Caeiro, para abrir a primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Saudosinski

A Menina de Lá

para Fê

O passarinho
des-
apareceu de
cantar

...

Eeu?
Tou fazendo
saudade.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Mesa

sento à mesa
(a minha, esta)

ainda não posta
ela me esconde

um copo
um prato

: uma fome

(do tamanho de minha saudade)

ela posta
aos poucos me revela

o silêncio das manhãs
(disse-me que o silêncio é a mais sincera das respostas)

às vezes esqueço

outro
copo prato (você)

hesito

um (novamente : eu)

a mesa

(da última vez você disse que precisava ir –
partir)

lições de ausência

: ir exige tempo e, acima de tudo, delicadeza.

você se foi
paciente e delicada

a mesa posta

(agora minha)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Natureza Morta

quiseram ao animal chamar-lhe filho. e este, brincadamente sobre suas quatro patas e rabo balançando felicidade, sabia ser - dentro de suas limitações - uma criança. foi até aí.

mesmo as crianças, apesar dos direitos, têm suas obrigações. e com o animal não seria diferente. impossibilitado pela sua natureza sem jeito, tentava executar as ordens que lhe eram dadas com a alegria dos que saltam do precipício e na queda lembra-se de que precisava de uma corda para se proteger. sem a corda que o salvaria, tudo o que fazia era amor inocente de quem brinca.

impacientes, deram-lhe a sacrifício, ele que já havia o feito, amando sem saber o quê.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Stand-By

off line

...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Correspondência

correria até sua residência. não sei onde resides. e falo menos de casa do que de onde vives. e onde vives é o segredo que me te guarda.

e falo menos de vozes: escrevo. o papel é minha voz que chega ao teu ouvido. o que te chega é branco. e o que te dou é minha residência. meu segredo.

respondemos-nos juntos as palavras que não são ditas e somente o som no abraço: coração com coração.

aprendi a levitar.