quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Canto de amor e morte de um homem em setembro

para R., ainda em nós e B. que me acompanha

desistir seria difícil não fossem as palavras. e é no silêncio que elas gritam e rasgam a pele da garganta e ardem o céu fora de sangue e de nada.

palavras encravadas nos dentes, prontas para morder a carne do pêssego ancestral. querem alcançar a luz diuturna, imersas na noite eterna – na sua profunda solidão de profeta no deserto.

lançadas ao nada, cada uma venta segredos contados a ninguém, a ouvidos mortos que sustentam a coluna da mulher natimorta – flor do pessegueiro.

o homem come a fruta. morde sua carne como quem canta.

canto de morte.

o canto é a promessa da perfeição – que nunca chegará. mas o homem espera. e morde a carne amarelada e canta e morre e ama.

: amor mais impossível que a vida

e morrer torna-se absurdo, mais ainda que amar, maior ainda que viver. e o homem sulca seus dentes naquela carne de morte e amor.

a carne mais feminina que seus dentes pôde acariciar.

o homem é um animal faminto. o cheiro da carne abraça toda a extensão rija de seu corpo - e ele ama a carne como a mãe viúva seu unigênito.

os dentes atacam com ódio erótico a carne. a carne pornográfica. a carne mulher-alaranjada.

e que palavras rosna o homem no momento de sua dentição sexual? e o homem avança violentamente os odores da carne. quer morrer daquele e naquele aroma. morrer naquele amor.

ele come grunhidos masculinos, ilegíveis – violentos.

ele come a violência daquela carne.

a carne – deixa-se amar, dando voz àquela mudez a mais solitária do mundo.

(e a palavra se faz nascente de amor)